O Gospel Prime
entrevistou com exclusividade o pastor Ailton Rodrigues Moraes, 39, da
Igreja Batista em Camobi, que mora e ministra em Santa Maria. Paulista
radicado no Rio Grande do Sul há muitos anos, Ailton mobilizou sua
igreja e chegou a ficar cerca de 20 horas seguidas atendendo os parentes
das vítimas e os profissionais envolvidos.
Ele relata abaixo como foi a mobilização das igrejas na cidade e as lições que os evangélicos podem aprender com o ocorrido.
Gospel Prime – Como está a cidade uma semana depois da tragédia?
Pr. Ailton: Há um ambiente de comoção, percebemos
que os moradores estão mais reflexivos, assustados, tudo isso misturado
com um sentimento de revolta, uma vez que a população de um modo geral
quer achar um culpado pela tragédia. Clamam por justiça, fazem
manifestações em frente de órgãos públicos desejando serem ouvidos. Nos
comércios o assunto é sempre o mesmo, a tragédia, aumentando ainda mais o
sentimento de tristeza. Mas aos poucos as coisas estão voltando ao
normal, percebe-se um esforço para que a vida volte ao normal o quanto
antes.
GP – Qual foram as atividades realizadas pelas igrejas em relação aos sobreviventes e vitimas, em especial a sua igreja?
Pr. Ailton: Houve uma mobilização por parte das
denominações presentes em Santa Maria, da região e até de fora do
Estado. Foram criados grupos de apoios dentro das igrejas coordenados
pela Defesa Civil. Eles se envolveram com doação de sangue, albergue,
entrega de água para as famílias (centro municipal, velórios,
hospitais), cafezinho (para retaguarda), lanches, assistência médica
(profissionais da área), ajuda na logística (montar e desmontar área dos
caixões), retirada do lixo da área e entre outras tarefas.
A Igreja Batista Em Camobi atuou nas áreas de doação de sangue,
entrega de água para as famílias, cafezinho para os profissionais e
familiares, além de retiradas de lixo do local dos caixões (centro
municipal Farrezão). Montamos outra equipe de albergue da igreja, para
aqueles que viriam de outras cidades.
GP – Muitos cristãos dizem que se os jovens não estivessem em
um ambiente de pecado não teriam morrido, o que o senhor pensa sobre
isso?
Pr. Ailton: Imediatamente após a tragédia me veio um
versículo da palavra de Deus, Disse-lhe Jesus: Vê; a tua fé te salvou
(Lc 18.42). Felizmente não havia ninguém da Igreja Batista em Camobi na
boate. Neste momento fiz a seguinte reflexão :
A fé de alguns jovens que frequentam a nossa igreja os salvou, pois
imediatamente comecei a pensar em vários dos nossos jovens que até pouco
tempo a trás, quando não serviam a Jesus junto conosco, frequentavam
locais como esta é outras casas da cidade. Hoje há em toda mídia, e em
todo Brasil uma movimentação para verificação das casas noturnas, com os
“prevenção”. Amém por isso, mas pena que para eles pensarem em
prevenção tivemos que perder tantas vidas valiosas.
Nossa igreja e muitas outras igrejas evangélicas já começaram a
prevenção contra este tipo de tragédia há muito tempo, orientando nossos
jovens do perigo e das possíveis consequências de frequentarem estes
ambientes [sexo livre, drogas, álcool etc].
GP – O que a igreja pode aprender diante desse tipo de tragédia?
Pr. Ailton: Sinalizo a importância de “acordarmos”…
Ao invés de haver festa no céu (Lc 15.7a), possivelmente houve festa no
inferno. Jesus nos deixou muitos ensinamentos a respeito de amor,
perdão, fé e julgamentos. O verdadeiro avivamento começa no interior das
pessoas, por isso devemos pensar qual tem sido o papel da igreja frente
à sociedade.
Deveríamos amar mais, perdoar mais, orar mais, arrependermo-nos mais,
evangelizarmos mais. Não só em momentos de tragédia e catástrofes, mas
que isso fosse um hábito em nossas vidas. O tempo é curto. Quanto maior
for à semeadura para a vida (Jesus), maior vai ser a colheita de vidas…
GP – Algum testemunho do tempo que ministraram aos parentes te marcou?
Pr. Ailton: Temos visto muitas à frente de algum
trabalho para ajudar, consolar, apoiar, estes que estão passando por um
dos momentos mais difícil de suas vidas. Mas eu fui indagado por um pai
que perdeu um filho na boate KISS. Sua pergunta me deixou perplexo.
“Onde estavam antes toda essa gente de instituições religiosas, com suas
orações, suas correntes de intercessões e etc. Onde estavam? Onde
estavam?”, questionava o homem.
Fiquei pensando no que as igrejas estão fazendo de concreto para
alcançar esse jovens, que se viverem sem Jesus acreditamos que estarão
indo para o inferno. “Onde estavam? Onde estavam?”, aquilo ficou na
minha cabeça.

0 Comments:
Postar um comentário